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Imagem: Van Gogh

Um homem a falar de um faqueiro que tinha em casa.
E ria-se, falava da qualidade das facas e dos garfos e ria-se, sorvendo o café por entre o bigode. O homem tocava a camisa ou a careca e ria-se mais e falava mais ainda sobre as coisas em sua casa, os sofás e a comida, o correio atrasado e o porta-chaves que tinha roubado num stand de automóveis. E a chávena a tremer com medo de cair da sua mão, os lábios e o queixo espetados, o pescoço esticado para alcançar o café.
E eu ouvia o homem ou via o homem sem o ouvir na verdade, ficando a pensar naquela alegria bovina, naquela mansidão de coração e pele e músculos e sexo, naquela coisa morna, naquele quotidiano que imagino carregado de pequenos objectos de porcelana e cinzeiros por usar.
E eu ouvia ou via o homem quase rindo mas não rindo e cheio de medo de, na verdade, de ser eu quem estava ao balcão, amargurado por tudo o que tinha deixado algures numa mesa de café, há vinte anos atrás.

© João Silveira