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Imagem: Eric Drooker

Porque a arte é uma coisa que caiu e se partiu, porque a arte são restos de comida na borda de um prato, porque a arte é uma noite mal passada na cama de alguém e os artistas são coisas pálidas que cedem o espaço para os outros passarem, baixando a cabeça e pedindo desculpa e porque os artistas não são “os artistas” mas antes pessoas sozinhas umas contra as outras, uma sombra que apenas se lamenta:

os artistas são animais de colo, são estofos coçados de um sofá, são o bolso das calças cheio de talões, são figuras com medo, são bandeiras rasgadas, são um lençol usado, uma manta para os joelhos, são uma boca articulada dizendo nada, uma boca constante dizendo «sim», são um baú de desculpas, explicações, são uma carta registada nunca levantada, são crianças ofendidas pregando rasteiras, são altares de si mesmos, são memória gasta, são o que outros foram.
São o fim e o que resta depois disso.

Porque os artistas são ilhas.
Porque, num momento qualquer, lhes passou a vontade de correr à frente dos outros, lhes fugiu a vontade de não terem de agradar, lhes caiu no colo o medo de qualquer coisa inexistente. E porque escrever ou tocar ou dançar, representar ou pintar e construir enormes desastres em aço deixou de ser um punho, deixou de ser uma porta ou janela para se tornar um tapete, uma vitrina. Porque os artistas só obedecem e só reagem.
Porque se tornaram apenas pessoas quaisquer num sítio qualquer, sem peito para reclamarem um espaço, para se juntarem num gume afiado e rasgarem o véu da vida dos outros. Porque, assim, são apenas os outros.

Não há nada realmente a perder.
Não há sítio marcado onde tenham de estar.
Não há quem lhes possa dar ordens.
Não há políticos, não há governos.
Não há desculpas.

Não há desculpas.

© João Silveira