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Imagem: Sarolta Ban (fotomanipulação)

 

1.

Que eu me refugiava na memória. Aliás, que eu inventava uma memória aconchegante para me proteger do outro. Que eu era viciado em situações recorrentes. Que eu acordasse. Que olhasse para frente. Saísse de casa. Permitisse a novidade. Mandasse embora o cadáver hospedado no sótão. Queimasse os álbuns de fotografias, os bilhetes, o saudosismo.  Que o mundo não era feito só de mausoléus e de memória e de sítios arqueológicos.  Que a terra girava em torno do sol. Que as galáxias também se moviam e expandiam os limites do universo.

Daí eu argumentei sobre a relatividade do tempo e do espaço e ele arqueou as sobrancelhas. Bombardeei chavões desesperados e ele não se condoeu. Espatifei o copo e os vidros de perfume no espelho e ele não me estendeu os kleenex. Se eu estivesse mais sóbrio não teria rastejado atrás dele até o ponto de táxi.

 

(Da série: separação de corpos)

 

© Gladstone Menezes