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Ilustração de Cleber Pacheco (para o livro "O círculo", de Cláudio B. Carlos)

 

FOI NUM JUNHO que decidi que não gostava mais do meu pai. Dos perdigotos e arrotos à mesa. Da cara e das mãos de ferro fechadas – acho que as mãos de ferro do meu pai estavam enferrujadas, pois nunca se abriam para afagos. Dos gritos com a mãe – da mãe também decidi que não gostava, foi num setembro, mas aí é outro papo. Dos tragos e dos coices que dava no meu cusco quando chegava do, e no trago. Dos estragos que fazia por gosto em meus brinquedos, e acho até que sem querer, em mim. NUMA MANHÃ deste junho acordei resolvido a crescer. Crescer o mais rápido possível e o mais que pudesse para sair do círculo que se fechava em volta de mim e que me apertava e que me sufocava e que acho que não suportaria se não crescesse. Fui parando de brincar, fui parando de sorrir e também de chorar. De tanto o pai falar pra eu engolir o choro é que fiquei cheio de nós na garganta, e não há nada nem ninguém que os desate. Algum tempo passou: num agosto o pai morreu, e eu, com treze anos, envelheci. A mãe continua por aí, que vaso ruim não quebra, amaldiçoando a mim, a vida, e a mala suerte. Agora, aos vinte, acho que morri, não sei. Não me mexo. Desde ontem que me vejo refletido na navalha que era do pai se barbear e que afiei com desvelo e que está aberta em minha mão direita, e ao certo, direito, não sei o que houve, ou se já houve, ou se vai haver CORAGEM.

 

 

© Cláudio B. Carlos (CC)