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Imagem: Robert Mapplethorpe

 

Eu queria cuidar de você, fazer cafuné, massagear seus pés, você gosta tanto, queria aquecer a água para o seu banho, trazer flores, chocolate, bicho de pelúcia, dar o seu remédio na hora certa, levar você ao dentista, ao dermatologista, ao urologista, ao psicólogo, queria passear com você no centro ou no calçadão se fizesse sol, se chovesse a gente iria ao shopping, ao antiquário do seu amigo, eu queria morar com você em uma casinha de janelas azuis e jardineiras floridas de violetas, isolados do mundo, eu queria comprar os cedês e devedês que você gosta, queria ouvir música abraçados, assistir filme comendo pipoca e tomando refrigerante, queria que a gente preparasse juntos aquela lasanha, acompanhada de um bom vinho, nas taças que a gente ganhasse no chá-de-casa, fazer bolo de nozes, eu queria ver você caçando os pernilongos ao anoitecer, verificando as trancas das janelas e das portas, queria dormir de conchinha depois que a gente fizesse aquilo gostoso duas vezes, queria ver você acordar, colocar a mesa do café da manhã, esquentar o pão integral no forno, espalhar os potes de geleia e manteiga sobre a mesa, as xícaras, os pratos, os talheres, juntar os farelos, amassar o miolo do pão, espremer as formigas com a ponta dos dedos, eu queria esperar você chegar da rua, perguntar por onde e com quem você andou a tarde toda, eu queria entender você, ler os seus pensamentos, adivinhar as suas vontades, os seus desejos, descobrir os seus segredos, as suas senhas, eu queria abrir a sua correspondência, ler os seus e-mails, as mensagens, o seu diário, saber o que você fala sobre nós, queria gravar as suas conversas ao celular, eu queria ter dinheiro para bancar os seus gostos, dar a você uma mesada maior, pedir demissão do emprego para ficar com você mais tempo, o tempo todo, para você não precisar de ninguém, não precisar conversar com mais ninguém, para você não olhar mais ninguém a não ser eu, o único que valoriza você, o único que presta atenção em você, eu queria que você não questionasse, não discutisse, não me constrangesse, não me pressionasse, não me irritasse, não quisesse discutir a relação, queria que a gente vivesse em harmonia, entendesse um ao outro, queria que tudo fosse claro entre a gente, como antes, eu queria que você nunca mais repetisse isso, nunca mais me dissesse que eu te sufoco, que a gente precisa dar um tempo, queria que você não abrisse as janelas, eu queria que você mantivesse a calma, não queria que você se alterasse, queria que você parasse de gritar, eu nunca vi você assim, fora de si, eu queria ver você sorrir de novo, ouvir de novo que você me ama, que a gente nasceu um para o outro, que eu sou o seu sol em câncer e que você é minha lua em leão, queria que você gozasse quando eu tocasse a sua kundalini, queria entender porque você se calou, porque você parou de gritar, queria que você parasse de sangrar, dói muito a faca enfiada na sua barriga?

 

(Da série: separação de corpos)

 

 

© Gladstone Menezes