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Imagem: Pablo Picasso

Margareth. Com “th”. Preferia Meg. Meg do Zé Borracheiro.

A pele de bebê, o sorriso de propaganda de creme dental condenados a murchar no puxadinho abafado dos fundos da oficina.

Unha vermelha? Escova permanente? Tintura loira? Lingerie branca? Trabalhar fora? Imagina! Só por cima do cadáver dele.

Cada noite o Zé morria diferente. Pó de vidro no arroz. Veneno de rato na cerveja. Gilete na carótida. Fogo no barraco. Chumbo derretido no ouvido. Explosão do compressor.

No dia seguinte, o mesmo café e pão com ovo. Arroz, feijão, carne de panela no almoço e canja de galinha à noite. Aos domingos, macarronada com frango, refrigerante e estupro.

Estupro, sim. Es-tu-pro. A cunhada horrorizada até aumentou o volume do rádio:

Amiga libriana, mude as atitudes. Elimine o que não te serve mais.

Furtou o dinheiro que pôde. Arrumou a mala. Antiga, de couro vermelho e forro de cetim. Duas mudas de roupa. Creme Nívea. Leite de Rosas. Xampu. Dentifrício.

Distraída no ponto de ônibus nem viu o Zé chegar. Só sentiu o sopapo. O gosto de sangue.

Dois dentes. Logo os da frente.

Arrastada pelos cabelos e jogada pior do que trouxa de roupa suja no chão da cozinha.

Depois, tudo era motivo para o covarde. A sopa insossa. Salgada. Batata cortada grande. Cozida demais. Café ralo. Ou fervido. Bife duro. Copo mal lavado.

Chaveou o telefone. Proibida de fazer as unhas. Nem ligar o rádio. Prisioneira do monstro. Queixar a quem? Delegacia da Mulher só em Goiânia.

Nunca mais riu. Nem no espelho. Vergonha dos dentes quebrados.

 

 

(Da série: separação de corpos)

 

© Gladstone Menezes