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Imagem: Lucian Freud

Levanto. O corpo ainda ressona, olho-o como se pronto a deixá-lo, prestes a renunciá-lo ainda no sono, aquele corpo com o qual eu havia me deitado e passado a noite. Olho-o, e o penso belo. O instante perdura, arde feito a tarde lá fora, como quando tudo desandou. Penso o amor, ou algo quase isso: não como o imaginamos a certa altura, mas como nos afligiu os dois tempos depois. É isso? Ah, meu bem, que quer que eu repita? Não vê?, já é tarde, o sol arde lá fora. Caminho entre móveis agora, sem querer mais que isso. Eu morreria com o ranço da fome me azedando a boca: a memória sofrida das primeiras horas do dia. A tarde de um outono pegajoso: morreria e apodreceria ali e tudo seria paz. Morreria, assim feito o sono da noite anterior, quando eu não cria poder mais. Faz calor, uma brisa morna feito o hálito de Illar vem e me lambe o corpo e me reduz à ruína – essa, sob o arvoredo, quase no fim dos dias. Eu esse homem a sofrer sabe Deus o quê. Lembro, não faz muito, eu descia um caminho logo ali, veja, e imaginava tudo ceder: o dia, esse meu corpo – a vida minguando feito as forças que não sustentam nem mesmo o corpo –, o cansaço de quem deita e morre: tudo daria a esmorecer no mais íntimo de mim, padeceria da própria inatividade, apodreceria, lembra? Não faz muito, agora há pouco, quando eu ainda não havia me dado conta de que deitava esse meu corpo e sofria, sabe Deus o quê.

© Fábio de Souza