Tags

Imagem: René Magritte

 

Não quero seu amor e não quero te amar. Amores eu já tive e são como balas de coco. Já comeu balas de coco? Pois devia. Amores e balas de coco são deliciosos, mas dificílimos de preparar. A gente perde horas, dias, meses, anos da vida preparando. Uma vez pronto, é uma delícia. Mas aí acaba e você fica com aquela cara de tacho. E com pedaços nos dentes. E com preguiça de voltar à cozinha para preparar mais.

Não. Não quero seu amor, nem quero que você queira o meu, nem almoço de domingo na casa dos sogros e essas merdinhas. Não estou disposto a preparar nada. (De novo). Quero, sim, uma paixão dessas doentias. Dessas que a gente se tranca em casa por dias sem fim e não come mais nada a não ser um ao outro. Fica sem ver parentes, falta ao trabalho, não liga para os amigos, nunca mais vê o sol, ignora o telefone e o interfone… Uma paixão dessas que emagrece, deixa marcas e faz com que a gente nunca mais use roupa. Que faz escorrer prazer de cada centímetro cúbico de corpo. Uma espiral voltada cada vez mais para o nosso interior. Uma paixão dessas que sufoca, dessas que faz enlouquecer qualquer cristão. Paixão de estarrecer a vizinhança.

A eternidade da paixão é muito melhor que a infinitude (finita) do amor. Amando é questão de tempo até que estejamos alugando comédias românticas na locadora. Apaixonados, não. Apaixonada, qualquer dia você aperta meu pescoço até a morte e corta fora meu pau com uma faquinha de passar patê no pão. Apaixonado, talvez um dia eu te ame.

 

 

© Eduardo Ferreira Moura