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Imagem: Zhang Peng

 

Eu ia pegar o celular. Para dizer que eu não voltava mais. Que ele ficasse com o dinheiro, a casa, os móveis, as jóias da mãe dele, os gatos, o elefante. Eu falei elefante? Que ele me deixasse em paz. Não, eu nem estava correndo. No máximo uns 90. O celular estava na bolsa. No banco do passageiro. Eu não achava o celular, você sabe, bolsa de mulher tem de tudo. Eu sei que é proibido. Não deu tempo de frear. A gente se distrai um segundo. A gente nunca pensa que pode acontecer. Graças-a-deus eu estava com o cinto. Só vi as luzes. Do carro do bombeiro, da polícia, do semáforo, dos letreiros, da boate. Boate? Não, eu não senti nada. Nem desmaio, nem dor, nem vontade de vomitar. Esquisito foi o silêncio depois do barulho da batida. Não ouvi mais o trânsito, a sirene. Só o zumbido, um chiadinho longe, sabe quando a ligação está ruim? Deve ter sido da pancada. Aí o celular tocou. O toque personalizado dele. Eu não achava o danado. Devia ter caído debaixo do banco. O celular não parava de tocar. Depois eu não me lembro. Só a dor na nuca. E o zumbido. Sabe se eles trouxeram o celular? Eu preciso ligar pra ele. Para ele não se preocupar. Só por consideração. Afinal foram mais de cem anos de casamento. Construído tijolinho por tijolinho. Eu falei cem anos? Depois eu juro que apago o nome dele da lista de contatos. Eu não devia ter saído sem avisar. Não devia ter bebido. Não devia ter deixado ele sozinho com a aquela prostitutazinha platinada. Um momento, deve ser ele. Como assim? Aqui não pega celular?

 

(da série: separação de corpos)

 

© Gladstone Menezes