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Imagem: Bill Viola

 

 

 

elaédotempodobobládopinadecopacabana e eu não conheço como era, não sei os cheiros, as cores, o sabor das pessoas, eu sou de uma cidade carregada de esquinas e escadas lascadas, paredes com séculos sujas com lama, carros amontoados, pessoas amontoadas com a primavera húmida em vez de casas erguidas sobre a terra – e ainda com o tom da terra na voz e nos lábios –, sem amor nos olhos, sem sexo sem carne sem alma, cidade carregada de máquinas que não funcionam, pessoas sem troco pessoas sem pessoas, deviam existir mais mulheres, mais Verão, mais tempo de fantasias
perfume
lábios
peito
mãos
nádegas
roupas contra um cadeirão vermelho
corpos contra tecido fresco
mais tempo em casas de  janelas enormes sobre o mar ou sobre o rio ou sobre o sol, menos cidade, menos pó na garganta e, antes, pela garganta galáxias inteiras roçando o céu, as máquinas esquecidas debaixo da luz branca, um deserto enorme tornando-se baía, mais dança electricidade violência, mais corpos ruindo contra a areia, mais sal mais sangue, mais fala sem gaguez  e esquecer a cidade que é linda, claro que é, é um coração de cal e azulejo, mas esquecê-la, esquecê-la, como a uma mulher demasiado inteira para os nossos dedos, esquecê-la mesmo que doa, mesmo que doa, que se foda, é tudo bom, é tudo calor, é tudo água pelo peito, afogamento suave, que se fodam as filas desesperadas no centro de emprego, que se foda a raiva no trânsito porque as revoluções impossíveis noutro sítio, que se foda o medo, que se foda a vida a começar demasiado ruidosa, que se fodam os carros cinza no parlamento, que se fodam as estatísticas, os pais sem dinheiro olhando os carros velhos, a comida na mesa a transpirar esforço, que se fodam as horas a passar em frente ao espelho à TV à mesa no sofá, sem destino sem salvação que se foda o passado, que se fodam todas as máquinas avariadas, esquecer a cidade, esquecê-la como a uma mulher doença e mergulhar as mãos na areia.

 

 

© João Silveira