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Imagem: Bill Viola

 

 

 

Toquei-lhe com esses dedos naquele instante, imaginando a manhã já quedar em face do calor virulento da tarde. Cheguei mesmo a conferir-lhe a respiração, assim, colado rente ao seu rosto, a fim de sentir-lhe algo afetado, os miasmas que exalavam daquele sono veemente, uma nesga que fosse de sua existência naquele corpo. Nada. Havia morrido, acho. Levantei. E disse comigo mesmo Ainda nessa manhã verei e tocarei o mar, eu disse comigo mesmo antes que tudo ruísse. E que me daria por inteiro, feito oferenda àquele ventre convulso, e me esqueceria de um corpo sem vida em meu quarto. Faria isso como que a castigar essa carne que aí vai e pisa a areia morna da praia lá fora e pensa Meus pés já perderam o costume dessas paragens e agora vagam nesse anseio torto, pensa assim, e lhe ocorre, num repente, como se num mal que o assolasse, o que havia esquecido horas antes, como algo que se reduzisse a pó…

 

 

 

 

© Fábio de Souza