Tags

Imagem: Francis Bacon

 

 

 

Quando eu nasci, minha mãe chorou de alívio e meu pai fugiu de medo. Eu ainda não era eu e já era um não.

Fui concebido às pressas, gestado à revelia e parido a contragosto. Eu ainda não era eu e já não gostavam de mim. Quando nasci, fui, antes mesmo de ser eu, a prova viva e clara de que nem todas as mães amam, nem todos os pais cuidam, nem toda vida é sagrada.

Para desgosto do Mundo à minha volta, porém, nasci.

Que eu me lembre – e, infelizmente, não me foi dado o dom do esquecimento –, cresci sem ouvir meu nome em outras bocas. As frases me vinham num imperativo seco, sem vocepodes ou porfavores. Sempre frases econômicas, de palavras curtas, que pareciam caber nos meus ouvidos como parafusos. As palavras me ensinaram o aço, o ácido e o açoite.

Cresci assim: devendo favores ao Mundo por ser eu.

Quando comecei a fazer coisas, percebi sem demora que eram de dois tipos: coisas que o Mundo não precisava que eu fizesse e coisas que o Mundo exigia que eu fizesse. Sempre fui impiedosamente execrado pelas primeiras e arrogantemente ignorado pelas outras. Quando escrevi versos, não soube de quem os tivesse lido; quando matei fomes, não houve quem me reconhecesse ao afastar o prato vazio.

O Mundo guarda em segredo um imenso baú negro onde esconde as coisas que fiz.

Porque nunca ganhei nada, precisei roubar quase tudo. Por não ter tudo que preciso, roubo cada vez mais. Por nada receber, não sei o que é culpa. Por mais que se esforçasse, o Mundo fracassou ao tentar esconder de mim aquilo que é minha única razão de respirar: o Prazer.

Sou menor que o zero, mas quando sinto Prazer sou maior que o Mundo.

Por não discriminá-lo, o Prazer me escolhe, me procura, me prefere, me seduz. Por puro Prazer, então, faço tudo que quero: beijo nucas, escarneço de bispos, alimento cães, separo amantes, afago amigos, ejaculo em virgens, ignoro relógios, entrelaço rimas, magoo crianças, aplaudo esquecidos, mastigo hóstias, enterneço putas e mostro caminhos. Por puro Prazer.

O Prazer, hoje sei, possui a estranha lógica das coisas perfeitas. Tem mais valor quando já passou, ou quando está para chegar. Idealizado antes e rememorado depois, nunca pode ser avaliado durante. O Prazer é o avesso da fome. Maldade dos deuses, claro. E de maldades e fome eu entendo muito mais que você, que tem a sorte de não ter nascido eu.

Vou morrer à minha revelia. Hei de ser um cadáver inconveniente, daqueles que cancelam compromissos na última hora, desarrumam colunas de jornais, ressuscitam ternos pretos, exigem lágrimas relutantes, desesperam credores e atrapalham o trânsito. O Mundo, por mais estranho que possa parecer, não terá o Prazer de sentir Prazer com minha morte, pois não terá mais a quem humilhar.

E um Mundo, quando não tem a quem humilhar, fica menos Mundo.

Minha vingança será horripilante. Hei de reencarnar João e viver da Silva. Pagarei impostos, falarei baixo, comerei legumes, rezarei à noite e direi um sim a cada minuto. Viverei muitos e longos anos assim: flácido, medíocre, cinzento, calado, quase feliz, contente por sentir a paz bovina dos ignorantes.

© Tony Saad