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Henri Matisse

O armário é um horror. Ir do chão ao teto é um despautério para qualquer móvel que não seja uma estante de livros. E ainda tem espelhos nas portas. Aliás, as portas são espelhos. Refletem uma sociedade nojentinha, alguns poucos quilos acima do peso, mas que não consegue sobreviver longe do próprio reflexo. Terrível. Mas foi presente do vovô.

Colchão no chão. Temos medo que o estrado não aguente. Claro que aguenta, por vagabundo que seja, mas colocar o colchão no chão faz parte do ritual que inicia os finais de semana e feriados que você vem. A gente se sente bem assim – é o que importa.

“É tanto amor que a cama nem aguenta!”

(Isso porque não é ela quem recoloca o colchão no lugar às segundas-feiras, dá vontade de cortar os pulsos e um dia eu ainda corto).

A luminária também vai para o chão. É necessária quando vou ler algum trechinho. Sempre está uma merda, mas ela sorri e diz:

— Que coisa linda, meu amor.

Ah, então são essas as tais mentiras sinceras!

A luz indireta cria sombras surreais. Enxergamo-nos em preto e branco. Na parede mal-iluminada oposta ao armário, projetam-se nossas sombras. Quer dizer, as sombras dos nossos reflexos. Encaro o espetáculo indescritível, uma aurora boreal em tons de cinza:

— Parece mágica.

Ela olha com um jeito sacal de criança prodígio:

— Não gosto de mágicas.

Estala os dentes e volta-se para a bobagem que prendia sua atenção antes que eu interrompesse seu narcisismo. Ela é dessas mulheres que usa jeans e malha branca com sutiã preto. Não contém as borboletas no estômago. Ela vomita borboletas.

O movimento desvela suas costas. A sombra do reflexo daquelas costas…

— São lindas.

Minha voz é trêmula. Faz que não com a cabeça. Ainda pensa que estou falando de mágica.

© Eduardo Ferreira Moura