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— Um automóvel azul – ela disse – encerado um milhão de vezes e exposto ao sol.
— O vento no deserto – ele disse.
— O vinho tinto – ela disse.
— O vidro – ele disse.
— O diamante – ela disse.
— O olho – ele disse.
— Um fio de sangue escorrendo do olho – ela disse.
— Você – ele disse.
— Eu?! – ela duvidou.
— Você – ele repetiu – correndo, aprisionada numa casa em chamas.
Ela pensou um pouco e disse:
— Não: é quente demais.
— Não – ele disse –: é secreto demais.

— De novo? – ela propôs.
— De novo – ele quis.
— Um punhal marroquino – ela disse.
— Unhas longas e vermelhas – ele disse.
— Lúcifer – ela disse.
O Paraíso Perdido – ele disse.
— Você lembra? – ela perguntou.
— De Londres? – ele ergueu a cabeça.
— Não – ela disse. — Do papel que embrulhava o livro.
Ele pensou um pouco e disse:
— Era preto e cinza, aveludado, e tinha só um filete, em relevo, de um amarelo envelhecido, na parte inferior. O fio amarelo envolvia o pacote só na parte de baixo.
— Só na parte de baixo – ela concordou, pensativa. — Como você acha que é feito um papel assim?
Ele sorriu e disse:
— Na Escócia. Numa cabana que fica sobre um precipício à beira-mar. Por uma mulher decrépita. Solitária. No verão eles carregam os fardos numa carroça enorme. Quase todo o papel se perde no caminho, devido à umidade.
— E por isso é caríssimo – ela acrescentou.
— Caríssimo – ele admitiu.

— Guinevere – ela disse.
— O quê?! – ele ergueu a cabeça.
— O nome da mulher que fugiu para a Escócia.
— Ah… – ele disse.
— Uma rainha – ela disse – com um segredo de decadência e adultério, pagando os pecados.
— Pecados enormes – ele assentiu.
— Lembranças enormes – ela disse.
— O inverno inteiro – ele disse.
— Eu nem tinha pensado no inverno – ela percebeu.
— O inverno também – ele disse.
— Também – ela disse –, com certeza.
— Com certeza – ele admitiu.

 

 

 

 

© Carla Severo Trindade

 

 

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