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Takato Yamamoto

 

 

Jogo a linha na hora e lugar certos, conhecedor das manhas do mar. Com dentes de bicho livre arranco a rolha da garrafa e bebo uma talagada. Ofereço a bebida que recusas com expressão de repugnância, habituada a paladares mais nobres. Não falamos nada e dizemos tudo, nos medimos de alto a baixo, avaliamos um ao outro, procurando pontos fracos.
Barco é barco, pouco espaço, jogos de perigo; por vezes disputamos o mesmo lugar, corpos colidindo, pelos se eriçando – resistimos. O dia me favorece e por isso não arriscas um confronto mais decisivo. Ciente de minha vantagem olho no fundo de teu olho até que abaixes a cabeça.

Não pedi esse confronto, a ideia foi tua quando na areia eu preparava a partida: Decifrar o mar, conhecer limites, saber do que sou capaz, disseste. Ideia mais sem propósito, falei, vou e volto melhor sozinho, conheço todos os ventos, não sou de companhia. Sei de outros rumos que só mulher sabe, arriscaste, num sorriso que – só agora percebo – era mesmo da mãe-d’água, sereia perigosa que provoca e cega.
Vela cheia, proa cortante, água sem fim, olho a praia ficando pequena e tenho gana de voltar a nado; orgulho de macho me impede.

Fim de tarde, lua quase espiando, minha segurança pra onde foi? Hora de mistério, de jogar a âncora e me sentir desajeitado. É secura na garganta, febre que chega, eu esquecido de tantas lições aprendidas em terra firme. Começa o tropel noturno de cavalos marinhos, botos cantantes, anêmonas fosforescentes, quando deixas cair a roupa a um canto da cabine e cantas canções de acasalamento.
Pavor da entrega, medo da morte em mim, nada disso te detém. Falas, torturas meus ouvidos com palavras insanas, provocas êxtases desconhecidos – prenúncios de iluminação. Barco e noite, água e corpos, gritos e desfalecimentos.
Silêncio morno, aurora que nos resgata, sentidos em abandono, te ergues devagar como num secular ritual. Abraço desfeito, preciso me saber vivo e busco a proa.
Balanço do barco, visco do teu corpo, na boca esse gosto de destilado, zoeira na cabeça ao brilho da manhã. Penoso despertar, emergir de tuas entranhas murmurando nunca mais. Água do mar pra me trazer de volta, mergulho fundo pra curar a angústia. Subir no barco e ser eu de novo, mesmo com teu olhar de cobra que hipnotiza a presa imóvel.
O sol me faz imune ao delírio, dono de meus desejos, homem de verdade, não mais menino trêmulo diante do abismo que trazes à noite. Enquanto minha pele se curte de luz e sal, eu não tenho medo e enfrento a mulher que me espreita. Vivo quando clareia, morro quando escurece e me devoras.
E se a gente endoidasse e esquecesse as regras e pudesse viver no claro e no escuro e se a gente não competisse e se a gente se amasse e se a gente dissesse isso um ao outro, o que aconteceria? Não responda, não quero saber, melhor ignorar.
É assim que funciona – eu escondo tristeza, tu exibes triunfo – não há como mudar esse jogo que inventamos, já estava tudo escrito desde o começo quando definimos os papéis de cada um.
Que te entregues e te afogues, ou que eu me lance ao fundo, ou ainda, que essas águas nos purifiquem e nos tenham – juntos, quem sabe? E que a vela então retorne à praia de onde nunca deveria ter saído.

 

 

 

© Saul Melo