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Giuseppe Cacciapuoti

Giuseppe Cacciapuoti

 

 

Meu amor é quase meu. Sabe tudo que quero e faz tudo que quer. Mesmo sem querer, inventou torturas e inspirou delícias que os livros ainda não conhecem. Meu amor dá lições aos pássaros, envergonha cáftens e mistura essências perigosas. Sabe a frase exata que um dia há de levar um rei ao suicídio e também conhece desde sempre a cantiga que nina uma criança desenganada. Meu amor é quase meu. Sorri como a mais lolita das virgens, gargalha como a menos virgem das lolitas e sente a leveza de quem viu desabarem as estátuas de mil generais. Sem o menor esforço, comanda ventos e obedece aos humildes. Meu amor é uma esfinge com rosto intacto. Tem a idade do Gobi e a pureza de um lama menino. Meu amor é quase meu. Faz pequenos milagres após as refeições e fala de coisas de amanhã. Meu amor desconhece a própria lava. Não usa palavras para desmascarar beatas nem gestos para seduzir os fortes. Meu amor desmente escrituras, desvirtua santos e assombra descrentes. Enternece rochas, emociona bestas e semeia ânsias. Meu amor é quase meu. Descobre perguntas, não busca respostas e nunca guardou uma só verdade. Meu amor tem hálito da primeira neve, nunca saiu do meu lado e é visível apenas aos poucos que veem de verdade. Domestica quimeras, coleciona tufões e borda lendas. Meu amor tem medo do escuro. Meu amor é a Madona dos anjos mestiços. Meu amor é quase meu. É a tâmara do beduíno errante, o leite negro dos nascituros aleijados, a lã dos mendigos do norte. Meu amor tem a voz de uma vestal no cio. Tem as mãos perfeitas dos mais doces sonhos de Aleijadinho. Tem cheiro de nuvem colhida no pé. Meu amor é quase meu. Pode urrar como um titã ferido de morte, mas, quando canta, afoga sereias e cala o rei do jângal. Meu amor caminha com a despojada leveza de quem vai à feira de chinelos. Tem um trigal nos cabelos, canela na pele e o Egeu nos olhos. Meu amor é Dafne e Ariadne, Valquíria e amazona, Morgana e Madalena. Meu amor é quase meu. Crê que não é preciso haver divindades para que algumas coisas sejam divinas. Meu amor é divino. Não acredita em morte lenta nem em viver aos poucos. Meu amor crê em Vinícius e sente saudade do Quintana que nunca conheceu. Não tem medo do Diabo, acha que Elis só existiu em seus melhores sonhos e ri como um curumim toda vez que vê Macunaíma nascer. Meu amor já morreu muitas vezes, quase todas para sempre.  Jura que Zeus, quando andou por aqui, se fez chamar Pixinguinha. Sabe, como eu sei, que a saudade é a mais cruel das fomes. Também sabe que uma fera, mesmo quando dilacera alguém, sempre tem razão. Meu amor é quase meu. Diz que a vida, para quem vive de verdade, é um luxo desnecessário. Acha que toda alma que se preza deve achar seu corpo um peso morto. Meu amor não acredita na morte, mas sabe que tudo tem um fim. Diz que Caim foi o primeiro homem a ter vontade própria. Sabe muito bem que para aprender, não é necessário estudar, e que para ensinar, basta existir. Meu amor me conta, em detalhes, meus próprios segredos. Meu amor, em meu Éden, é o fruto permitido. É o Malleus Maleficarum ao avesso. Meu amor é um oboé ao longe.

Meu amor é quase meu e tem um nome belo: Mulher Sem Senões.

 

 

 

© Tony Saad

 

 

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