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Jackson Pollock

Jackson Pollock

 

 

A mulher pensou que um bom tema é como um bom corte de rês para churrasco. Deve ter algum nervo para dar sustentação à peça, mas não muito. Deve-se ver certa capinha de gordura para despertar o gosto, mas não muita. Um bom tema precisa escorrer líquido espesso, rubi, sobre a tábua, algo que lembre uma pessoa eviscerada arrastando-se sobre o tablado, ao redor da piscina, ainda que todos saibamos tratar-se de coisa morta. Porque a literatura jamais chegará ao apogeu da vida, mas deve convencer-nos de suas potencialidades como sucedâneo. Mas de que serviria um bom tema se o compositor fosse vegetariano? É preciso ter a paixão da lâmina – pensou –, trazer a lâmina embainhada entre duas costelas como o diabo no corpo. E pensava isso quando rolou o cadáver do amante sobre o linóleo, na garagem. Deus! Que peso! Usando um avental diáfano como uma camisola. Deve convencer-nos de suas potencialidades como sucedâneo. Cortou as roupas dele com uma tesoura e arrancou tudo. Depois dividiu os ossos com uma serra elétrica enquanto os filhos ouviam heavy metal no quarto de cima da garagem. Separou os nervos. Escolheu as partes tenras. Insensata, foi beber água na cozinha e deu de cara com o garoto mais novo afastando-se da geladeira com um pedaço de pizza fria na mão. Estava suada, com os cabelos em desalinho, empunhando um facão de trinta centímetros e com o avental todo respingado de sangue. Após alguns segundos de fatal intensidade, o menino, que tinha dois metros de altura, quinze anos de idade e o cérebro de um pato, deu uma risadinha gutural e disse:
— Ih!, mãe! A senhora está parecendo o Jack estripador!
— Não amole! – exclamou e, ao ver que ele se esgueirava pela porta dos fundos: — Não entre na garagem! Estou preparando umas telas!
Imediatamente, voltou-se e, largando o facão e apoiada com as duas mãos na bancada da pia, sacudiu a cabeça: Mas que idiotice é essa de telas?! – pensou. — De onde foi que eu tirei isso?!
À noite, o marido, que tinha metro e meio de altura, cinquenta anos de idade e o cérebro de um pato sênior, ficou bem chateado por não poder guardar o utilitário na garagem.
— Vai estragar a pintura – resmungou.
— É só por uma noite – ela garantiu.
— Mas o que é mesmo que você está fazendo na garagem? – quis saber.
— A mãe está desenhando um quadro – explicou o filho mais velho.
— Não é bem um quadro – disse ela, enquanto depunha a salada de maionese nos pratos. — É uma faixa para o Grenal.
— Ô!, mãe! – confundiu-se o rapaz. — Mas a senhora não era gremista?
E ela, com um sorriso sedutor:
— E os meus filhinhos e o meu maridinho não são colorados? E o que é que uma mãe não faz pelos seus amores?
No domingo, o jardim da frente exibia, de lado a lado, vermelho-sangue em caixa alta contra fundo branco: GLÓRIA DO DESPORTO NACIONAL.
Nunca o churrasco foi tão aclamado. Lá pelas tantas, comovido com um pungente elogio da sogra, o marido enlaçou a mulher por trás e, entre miasmas de cerveja, sussurrou-lhe ao ouvido:
— Sabe, bem, você devia voltar a escrever aquelas histórias de amor tão lindas que você escrevia… Lembra?
— Eu sei… – ela deu uma batidinha carinhosa no braço dele. — Mas é que me falta um bom tema…
E foi o Grêmio quem venceu a partida.

© Carla Severo Trindade